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Expectativas no setor mineral: uma visão sobre as pessoas


A depender do contexto, as pessoas criam expectativas diferenciadas. A realidade do setor mineral em relação às expectativas das pessoas não é diferente.

Esse artigo vem para falar sobre algo mais pessoal: expectativas.

Se até a economia de um país funciona na base de expectativas (e cenários diante dessas expectativas), não é difícil entender que com as pessoas funciona assim também, e de certa forma, elas são motivadas pelo sentimento de expectativa em relação ao futuro.

Na exploração mineral a relação com a comunidade segue o mesmo raciocínio, mas de forma divergente em se tratando da relação à comunidade em locais mineradores, por exemplo.

Penso que é muito importante saber lidar com as possíveis mudanças de referência que a exploração mineral traz para a comunidade onde se inserem os trabalhos de pesquisa. E isso tem de acontecer de forma humanizada. Já escrevi, por exemplo, sobre uma experiência própria onde digo que esbarrei na morte, que de certa forma está ligada à questão de expectativa.

Quando estive envolvido em um projeto de exploração para ferro numa região do Pará, às margens do rio Araguaia, eu tive a oportunidade de vivenciar muitas experiências, profissionais e pessoais. Nessa época eu morava no sul do Maranhão, mas já faziam uns 7 meses que estava nesse local planejando e executando o que havíamos decidido para o projeto, no campo… Então posso dizer que praticamente morei no projeto, numa cidade paraense de pouco mais de 8 mil habitantes. Morava no único hotel da cidade.

Sendo assim, acabei me envolvendo com a vida das pessoas daquele lugar. Quase me sentia dali. Participei da vida de muitas famílias, conheci intimamente muita gente – e gente de todos os tipos…

A cidade era muito pequena, e por isso as oportunidades ali eram pouquíssimas. O tempo não passava e os jovens – principalmente – não viam ali um futuro promissor.

Por onde andava, eu era abordado:

“Leonardo, você achou minério? Como está a pesquisa? Tá achando minério né?”

Para leigos em geral, “minério” refere-se à minério de ferro.

“Diz para nós que você está encontrando o minério que você está procurando…”

“Será que eu posso ampliar meu comércio, na expectativa de atender a uma oportunidade de crescimento na cidade?”

“Você tem como arrumar um emprego para meu filho/sobrinho/cunhado/genro?”

“Nossa, no dia que você disser que tem minério aqui essa cidade vai bombar! Tomara que você encontre minério, porque não temos perspectiva de nada para fazer a cidade melhorar…”

Recebia mensagens até do poder público. O prefeito da cidade queria conversar (o que não se concretizou) para entender melhor o que estava acontecendo e o que poderia acontecer com a realidade da cidade se houvesse mesmo uma mineração no município. O que é normal…

Percebi que meu trabalho naquele lugar era muito maior do que pesquisar “minério”. Eu estava lidando com o sentimento das pessoas. Essas pessoas estavam depositando no projeto de exploração uma esperança sobre algo que estava fora do meu controle. Isso é muito sério.

Como eu não poderia divulgar os resultados que estavam sendo gerados – e os resultados não eram aquilo que gostaríamos – eu tinha sempre de dar um jeito de ser transparente sem ter de entregar alguma informação sobre o projeto. Às vezes declinava mesmo, se a pessoa fosse inconveniente… Meu objetivo era manter um certo nível de expectativa, sendo transparente mas sem criar uma ilusão, ao mesmo tempo em que deveria preservar as informações sobre o projeto. E ainda tinham os céticos, mas esses eram mais fáceis de lidar…

Naturalmente, a expectativa na exploração mineral tem muito a ver com o futuro, com as possibilidades de profundas mudanças locais em virtude da movimentação de pessoas, equipamentos e demandas relacionadas à pesquisa mineral no período em que se executa o projeto. A expectativa das pessoas inicia-se quando se nota que a equipe está mobilizada a um certo período de tempo, o suficiente para eles acreditarem na possibilidade de haver um jazimento mineral por ali. O impacto na expectativa é como uma criança esperando o PlayStation 4 na noite de Natal, quando na verdade, na maioria dos casos, ela recebe uma bola dente de leite, ou um pião, ou um par de meias… Essa expectativa pode e deve ser controlada de forma responsável. Não é fácil…

Sendo transparente e honesto com as pessoas, ao mesmo tempo em que se preocupa em proteger o sigilo do projeto é o melhor caminho. Muitas vezes tive de dizer “não posso falar sobre esse assunto!”

Comparando com uma cidade onde já existe a produção mineral, a questão da expectativa é bem diferente. O paradigma de mudanças profundas em si já não é tão relevante. Pode haver até um ambiente hostil por parte de alguns grupos sociais. Claro que existem grandes impactos quando uma mineradora precisa reformar sua planta de beneficiamento, ou executar um projeto de expansão, por exemplo. Porém, em casos como esses, a cidade se revigora, mesmo tendo de enfrentar os problemas oriundos de um acréscimo substancial no número de pessoas na cidade. E depois os habitantes locais sabem que esse período acaba e tudo volta mais ou menos ao que era antes. Ou não…

Nesse caso, a expectativa é a de conseguir uma colocação no mercado de trabalho diante da oportunidade que se apresenta, mesmo se for em uma empresa terceirizada (sem entrar no mérito ou demérito da questão, apesar de ser necessário a discussão. Não é o foco aqui). A expectativa é a de aproveitar o momento do boom local, sazonal, com ampliação de comércio e serviços. É, também, a expectativa de que não haja um problema inesperado, causadora de má notícia, como por exemplo, o fechamento de uma mina, o encerramento de alguma atividade minerária, ou acidentes impactantes como o de Mariana…

Um ponto bem característico em localidades mineradoras é seu alto custo imobiliário. Cidades como Parauapebas/PA e Itabira/MG apresentam custos de imóveis para venda e locação a preços que chegam a ser abusivos – o que acontece, em menor escala, na fase de exploração mineral. Nessas cidades, por exemplo, não existe o sentimento, por parte da comunidade, de mudança de paradigmas em torno de uma nova atividade econômica, e existe um grau maior de hostilidade perante a mineração, partindo-se de grupos diversos e interesses quase sempre diversos também.

Expectativas diferentes em cenários diferentes. Em São Gonçalo do Rio Abaixo/MG e em Canaã dos Carajás/PA, há alguns anos atrás, viveu-se a expectativa de uma mudança de paradigma diante da possibilidade do sucesso (comprovado) dos resultados apresentados pela exploração mineral respectiva. Tanto em Canaã quanto em São Gonçalo, essa expectativa encontrou seu apogeu no momento em que a mineradora (coincidentemente a mesma em ambos os casos) deu prosseguimento à implantação do projeto que permitiria a explotação do “minério”. O que trouxe a esperada prosperidade para a região, como é de praxe na atividade.

Passada essa expectativa, as necessidades foram, de um modo geral, atendidas e a partir de então outras necessidades (e com elas, outras expectativas) passam a ser prioridades para a comunidade. São expectativas pessoais que acabam tomando forma em toda a comunidade. Tanto é que Canaã dos Carajás e São Gonçalo do Rio Abaixo são municípios que experimentam grande expectativa de futuro a ponto de atrair pessoas de várias regiões do Brasil – mesmo estando em fase de produção mineral.

Eu também tenho expectativas, uma perspectiva de futuro. É como aquela população da cidadezinha de 8 mil habitantes onde passei uma pequena parte da vida pessoal/profissional. A expectativa caminha junto da esperança. Por isso é algo tão pessoal e tão sério de se trabalhar…

A minha expectativa é a de que eu possa desenvolver meus propósitos. Por exemplo, com a CLGeo e parceiros, tenho a esperança de poder desenvolver projetos de exploração que vão além da procura por bens minerais. Projetos que deixem um legado na comunidade, intangível mas profundo, mesmo que não finalize em uma jazida que será explotada logo em seguida. Algo que seja um fator de mudança na vida das pessoas, para melhor. Muitas vezes nem precisa de grandes investimentos financeiros. Incutir uma visão de importância da educação na mentalidade dos jovens e crianças já vale a pena as dificuldades inerentes aos trabalhos de exploração mineral em áreas remotas, por exemplo…

Penso que se o simples contato com o outro, na realidade dele, possa significar uma mudança de sua condição humana, já terei cumprido o meu papel social. No Pará, nosso trabalho influenciou alguns jovens a tentarem a vida sendo prospectores, sondadores, ou mesmo de se interessar pelas “pedras” da região. Ver o mundo que os cercam de forma diferente. Vi também pessoas que costumavam a jogar lixo no chão, com naturalidade, e, depois de convivermos, passarem a adotar uma cultura diferente, de cuidar de seu espaço.

Lembrando: ninguém é melhor do que ninguém. Da mesma forma que tentei agregar algum valor na vida das pessoas, eu também saí de lá mais “rico”. Aprendi a dar valor a situações e valores que para muitos de nós são triviais. Aprendi que a sabedoria não habita exatamente nas salas de aula de uma escola ou universidade. As pessoas carregam em si o seu valor (mesmo quando elas não saibam disso) e todos nós temos e podemos contribuir com a melhoria do outro. Acho até que recebi mais do que doei, e por isso sou muito grato às oportunidades que tenho e que tive.

Chega a ser emocionante.

E você?

Qual a sua expectativa? O que você deseja? Como você vê o sucesso de seu empreendimento? É só relação custo/benefício, lucro/prejuízo (que são extremamente importantes), ou existe alguma componente social/humana associada?

Você tem alguma experiência parecida? Compartilhe conosco a sua experiência. Não tenho dúvidas de que será de grande valor para nosso crescimento pessoal e profissional!

P.S.: Nesses momentos de crise, e de letargia do setor de exploração mineral, chega a dar saudades de se viver experiências como essa e muitas outras.


Leonardo Souza é Engenheiro Geólogo com experiência em Prospecção Mineral e Geologia do Petróleo, possui MBA em Gestão Estratégica de Projetos e é Diretor  Executivo da CLGeo Soluções em Geologia e Mineração.

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