A Aplicação da Metodologia Front-End Load (FEL) em Projetos Minerais de Pequeno a Médio Porte – Uma Realidade Viável? – PARTE I


Será que o FEL pode ser aplicado à Exploração Mineral? É viável para organizações de pequeno e médio porte?

Todos nós sabemos que na indústria mineral a realidade de altas probabilidades de riscos e custos elevados se apresentam para investidores e pequenos e médios mineradores, além das Juniors Companies.

Diversos projetos promissores poderiam obter sucesso se não fosse pela falta ou alguma deficiência em procedimentos técnicos/gerenciais, comprometendo o planejamento da gestão das fases da exploração mineral, com atenção ao Escopo, Custos, Prazos, probabilidade de Riscos, e atenção aos Stakeholders envolvidos ao longo da execução desses projetos.

Existe também a Qualidade… A Qualidade nos processos é fundamental, a ponto de merecer um capítulo à parte. Aqui entenderemos a questão da Qualidade como resultado de uma gestão eficiente dos campos de conhecimentos – Exploração Mineral/Gestão de Projetos (PMBOK 5ª Ed.)/Metodologia FEL.

A Metodologia FEL foi criada pelo Independent Project Analysis – IPA, e pode ser entendida como sendo uma coleção de métodos, técnicas e ferramentas que mostram o que e como deve ser feito e em qual momento, aplicados em projetos na indústria pesada (petroquímica, transformação, etc). Em outras palavras, é um conjunto de ferramentas de gestão que normalmente aplica-se a projetos de grande complexidade, que demandam aportes de capital bastante elevados.

O FEL parte do princípio de que a definição do projeto de forma cada vez mais assertiva resulta na redução da quantidade de possíveis claims durante a fase de execução, justamente onde os custos para se alterar escopo e os processos técnicos são mais elevados. O resultado do FEL é um maior impacto na gestão do escopo, que por sua vez deve estar firmemente ligado à cultura organizacional (necessidade do negócio) da empresa.

O FEL divide-se em três etapas: FEL I, FEL II e FEL III. Para cada FEL tem-se um conjunto de atividades que entregam produtos específicos, dando suporte contínuo na tomada de decisão para o prosseguimento (ou não) do projeto (ou outro projeto interligado) para o próximo FEL. Os gates são as interfaces entre os FEL’s, ou seja, portões (requisitos) que devem ser superados para o avanço do projeto de maneira monitorada e bem gerenciada, antes de se iniciar as próximas atividades do projeto. É bom lembrar que pode-se estabelecer FEL’s para cada etapa da pesquisa mineral, com o cuidado de não tornar o gerenciamento excessivamente complexo e caro.

  • FEL I – Análise do Negócio: O FEL I define os objetivos do projeto alinhado às necessidades do negócio ou visão empresarial, ou seja, determina os objetivos do projeto e qual a sua relação com a visão empresarial da organização. Para implantar a metodologia FEL é imperativo que a empresa tenha consolidada uma cultura organizacional forte, com sua missão, visão e valores muito bem difundidos entre os membros da equipe e entre os departamentos e gerências.

Objetivos do FEL I:

  1. Validar a oportunidade de negócio;
  2. Determinar as alternativas aprovadas para a fase seguinte. Realiza-se a previsão de mercado, estudos de competitividade e estimativas de custo.

Processos e Saídas:

  1. Reunião preliminar – startar o projeto;
  2. Desenvolvimento de Declaração de Escopo preliminar;
  3. Cronograma e Marcos do projeto;
  4. OPEX e CAPEX – estimativas de custos do projeto baseadas em índices ou experiências passadas;
  5. Identificação de Stakeholders.
  6. Estrutura organizacional do projeto, relacionado à estrutura organizacional da Empresa ou Organização;
  7. Análise de riscos do negócio;
  8. Avaliação de mercado;
  9. Legislação e requisitos de segurança do trabalho e prevenção do meio ambiente;
  10. Identificação de tecnologias e rotas de processo (procedimentos padrão, por exemplo).
  • FEL II – Seleção de Alternativas: É a fase conceitual do projeto, resultado do desenvolvimento da etapa anterior, chegando-se a uma melhor definição do escopo e dos critérios e restrições para o desenvolvimento do projeto (design).

Objetivos do FEL II:

  1. Desenvolver as alternativas identificadas e focar o projeto a uma melhor opção possível, detalhando premissas e atualizando os dados;
  2. Estudar as opções identificadas e direcionar o projeto a uma opção;
  3. Refinar premissas, atualizar os dados e iniciar a definição do projeto.

Processos e Saídas:

  1. Escopo detalhado;
  2. Estrutura Analítica do Projeto (EAP) preliminar;
  3. Cronograma preliminar;
  4. Atualizações de informações de segurança do trabalho e meio ambiente;
  5. Estratégia de licenciamento ambiental;
  6. CAPEX e OPEX – Atualização de custos;
  7. Atualização da estrutura organizacional do projeto;
  8. Matriz de Stakeholders – comunicação e atribuições;
  9. Análise de riscos com maior nível de detalhes quantitativos e qualitativos;
  10. Atualização da análise técnica e econômica.
  • FEL III – Planejamento da Implantação do Empreendimento: Nessa fase ocorre a preparação do projeto para sua aprovação corporativa e futura implantação. É nessa fase que se elabora o projeto básico, ou seja, o desenvolvimento da engenharia básica (processos) a partir do escopo desenvolvido em FEL II, com um CAPEX melhor dimensionado.

Objetivos do FEL III:

  1. Desenvolver a engenharia detalhada (processos), o plano de execução e a estimativa de custo detalhados para a alternativa de desenvolvimento selecionada na fase de FEL II;

Processos e Saídas:

  1. Detalhamento do escopo e rotas de processos (EAP) consolidada;
  2. Cronograma consolidado;
  3. CAPEX e OPEX – Custo consolidado;
  4. Consolidação da estrutura organizacional do projeto;
  5. Consolidação da matriz de atribuições e de comunicação;
  6. Atualização das questões ambientais – licenciamento e estudos;
  7. Atualização da matriz de Stakeholders;
  8. Análises de riscos e riscos operacionais;
  9. Consolidação da avaliação de mercado e estudos de viabilidade técnica – econômica;
  10. Plano de execução do projeto – PEP.

Parece ser complexo e muito difícil. Pode parecer até mesmo caro, inviável e carecer de objetividade. Por outro lado um projeto sem o devido planejamento e sem informações consistentes para a tomada de decisão é bem mais difícil e caro, além de não ser objetivo e poder até mesmo ser inviável. A grande questão é a equipe e o gestor correspondente entender e ter a sensibilidade para adequar a metodologia de acordo com a realidade da cultura organizacional, com os objetivos propostos e com a dimensão do projeto.

O FEL confere maior impacto sobre o sucesso do projeto, otimizando os custos, resultado da redução do número de alterações que ocorrem ao longo de sua execução. O fato de o projeto ser compartimentado em etapas permite uma maior assertividade ao projeto, analisando a aderência aos objetivos propostos e apresentando uma melhor visibilidade de oportunidades que podem surgir possibilitando alcançar melhores resultados.

Qual o retorno para a organização? O retorno para os Stakeholders em termos de vantagem competitiva pode ser observado na minimização das probabilidades de riscos, no aumento da credibilidade e da segurança técnica-financeira do projeto, em melhorias contínuas na elaboração do plano de gerenciamento do projeto, em sua execução e controle, além de propiciar uma visão objetiva sobre os custos e prazos.

No mínimo a organização terá um insight mais apurado para encerrar um projeto no momento adequado, e com segurança da decisão tomada. A pior situação para uma organização é investir em um projeto de exploração mineral, não encontrar a jazida esperada e abandonar a área para logo depois seu concorrente investir em pesquisa no mesmo local e ser agraciado com um jazimento que o deixa numa situação confortável.

É claro que a utilização do FEL não engessa o processo de Exploração Mineral, podendo o FEL ser implantado em maior ou em menor grau, em apenas uma ou em todas as fases da Exploração Mineral, ou na Exploração Mineral como um todo, considerando a implantação da mina como sendo o FEL III. A grande sacada é ter a capacidade de adequar a metodologia FEL ao projeto, sem que este se descaracterize, e não o contrário.

Um bom exemplo de aplicação do FEL, de um modo geral, seria na tomada de decisão de se escolher, dentre inúmeros alvarás de pesquisa, qual(is) dele(s) é(são) os prioritário(s) para se investir numa pesquisa mineral, em detrimento do(s) outro(s), que poderá(ão) ser descartado(s), minimizando custos com pagamento de TAH, investimentos vultosos em áreas que não são promissoras, além de minimizar o risco de se descartar alvarás promissores ao invés de descartar aqueles que não vão resultar em jazimentos esperados.

Nos próximos artigos sobre esse assunto vamos tratar das fases da Exploração Mineral, seu conceito, e como as diversas etapas desse processo se relacionam com as fases do FEL. Entendemos que a natureza compartimentada da Exploração Mineral se identifica muito bem com a natureza compartimentada da Metodologia FEL.

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Leonardo Souza é Engenheiro Geólogo com experiência em Prospecção Mineral e Geologia do Petróleo, possui MBA em Gestão Estratégica de Projetos e é Diretor  Executivo da CLGeo Soluções em Geologia e Mineração.

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